A Insustentável leveza do ser
Ele a estreitou contra si e levemente ela adormeceu em seus braços. Nos braços dele, mesmo no auge da agitação, sempre se acalmava. Ele contava a meia voz bobagens para ela, palavras tranqüilizadoras ou engraçadas que repetia num tom monótono.
Quando dormiam, ela o segurava como na primeira noite: apertava-lhe firme o pulso, um dos dedos, ou o tornozelo.
Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes, mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher).
Milan Kundera
Crises de Amor
São as crises de amor
Nem por isso te amo menos
Nem por isso, nem por nada
Não adianta nem tentar novos caminhos
Quando é fácil consertar a velha estrada.
Conhecemos mil segredos um do outro
Muitas vezes nos amamos confiantes
Conheci você no auge do amor
E você me conheceu no mesmo instante.
Pela Noite
E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas?
Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual.
O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.
Caio Fernando Abreu
Você invade mais um lugar em que não estou.
Olha eu,
Ouvindo teus sambas, curtindo teu futebol, assistindo teus filmes, dizendo ‘oi’ pro’s teus amigos, agradando tua familia.
Olha eu,
Fazendo tua comida, lavando tuas roupas, limpando teus sapatos, colocando tua sujeira pra debaixo do tapete.
Olha eu,
Querendo que você se lembre de mim também, decorando tuas mensagens, lendo os teus olhares.
Olha eu,
Apaixonada pelo cara errado (de novo.)
Retirado daqui: http://priconceitos.wordpress.com/
Quebra-Cabeça
As pessoas se encaixam. Elas precisam se encaixar. Já faz um tempo que eu penso sobre isso observando os casais no meu trabalho. Sou cobrador de estacionamento num grande shopping. Fico sete horas por dia sentando numa cabine, atrás de um vidro, recebendo papeizinhos para enfiar numa máquina que verifica o tempo que o carro ficou estacionado. Cobro o valor devido, recebo o dinheiro, dou o troco quando necessário, e devolvo o cartão liberado para sair. É basicamente isso. Não, na verdade é só isso mesmo. O máximo de emoção que acontece é quando alguém perde o papel, aí tem que preencher uma ficha, mostrar o documento, pagar o valor de ticket perdido, geralmente a pessoa reclama, mas pra isso tem meu supervisor pra resolver, eu nem me meto. É ele que eu chamo também quando algum bêbado cisma em não pagar.
Mas como eu ia dizendo, as pessoas se encaixam. O fato de não ter muito o que fazer sentado sozinho na cabine fez com que eu tenha começado a prestar bastante atenção nas pessoas que passam por ali todos os dias, e fui reparando como os iguais se procuram. A menininha baixinha de cabelo rosa com saia curtinha e meia até o joelho está sempre acompanhada de um descabelado de jeans e camiseta destonados, calçando um All-Star. O cara de camisa pólo e calça justa com sapato marrom vem acompanhado da namorada com cabelo liso de chapinha, argolas grandes nas orelhas, bastante maquiagem e uma roupa de grife da moda. O que veste uma coisa que não combina com a outra normalmente está acompanhado de uma moça que coloca uma roupa que não fica bem no corpo dela e ela não percebe.
Lembro de quando eu estava no colégio e discutia com minhas amigas que os opostos se atraem. Tudo besteira. Nunca vi uma roqueira tatuada acompanhando um executivo com cara de que trabalha na bolsa. Ela no máximo vai estar com um roqueiro que goste de uma banda que ela odeia. Mais que isso não dá. Não encaixa, e as pessoas precisam se encaixar.
Eu achava que encaixava com Luzia, minha ex-namorada. Ela trabalha no atendimento ao cliente do shopping. É ela que chama as pessoas pelo microfone central quando alguma criança se perde dos pais, devolve carteiras perdidas, essas coisas. Ela é muito inteligente. Um dia na hora do lanche eu estava caminhando pela praça de alimentação e a vi sentada num banco no canto lendo uma revista dessas de celebridade. A capa era uma atriz que tinha acabado de casar e já tava separando. Sentei numa mesa que dava pra olhar pra ela meio escondido e até esqueci do meu sanduíche. Uma hora ela levantou os olhos na minha direção e sorriu. Fiquei vermelho, desconcertado, achei que estava sendo discreto, e morrendo de vergonha me levantei e fui até ela. Perguntei se podia sentar.
Pode, claro. ela respondeu meio sem graça. Desculpe. eu disse. Pelo que?, ela. Por ter ficado te olhando tanto, eu. Você estava me olhando? Estava. Eu não reparei. Jura?
Ela não estava rindo de mim, era do motivo da separação da tal atriz. O marido não era artista também, eles disseram que não dava pra conciliar as agendas, pá, acabou. É, eles não encaixaram, eu sorri. Ela correspondeu. Ficamos papeando mais vinte minutos até o fim do nosso horário de descanso e marcamos de sair uma outra hora. Foi ótimo. Ela gostava dos mesmos filmes de comédia com o Eddie Murphy que eu, se amarrava nos programas de auditório do Silvio Santos, jogava toda semana na mega-sena. A gente saia pra passear de mãos dadas no parque nas nossas folgas e eu me sentia muito feliz.
Um dia, sem mais nem menos, Luzia me disse que não queria mais. Por que?, eu perguntei. Não sei, preciso viver coisas diferentes, ela me disse. Diferentes como?, eu quis saber. Eu não posso viver isso com você?, insisti.
Ela não me disse mais nada. Apenas abaixou a cabeça e chorou baixinho segurando minha mão. Chorei também. Dali pra frente não nos falamos mais no shopping nem em lugar nenhum. Ela evita passar pela minha cabine, eu não vou mais na praça de alimentação. E eu descobri que ser feliz e entender alguém não basta pra encaixar. É alguma coisa além disso. Luzia e eu não éramos tão perfeitos como eu achava. E desde então eu fico aqui sentado recebendo os papeizinhos, olhando pros outros e tentando entender o porquê de certas colas darem certo. Talvez um dia eu descubra. E acho que eu vou, sim. Saber o que não vai funcionar até parece fácil, mas e o que vai? Deve ter alguém aí fora que encaixe comigo. Todo mundo precisa encaixar com alguém.
(Achei esse texto no blog do ator Pedro Necshiling , ex namorado da Luiza Possi. Diz pra mim se não pe um fofo? *.*)
Armadura
Não sei bem o que é, mas há algo presente em cada centímetro do teu sorriso que me dá vontade de chutar a porta que dá pra rua e sair correndo, sem saber onde fica a minha casa.
Há algo que me priva de usar todas as artimanhas que eu colecionei, que me faz esquecer todas as minhas frases de efeito e que faz com que tudo que eu faça/diga pareça de uma imbecilidade infantil.
Não sei bem o que é, mas há algo presente em cada palavra que tu me apontas, que sopra em meu ar essas bolhas de sabão. A trajetória dessas pequenas bolsas de ar é tão imprevisível, tão frágil, que eu fico com medo de tocá-las. E são tantas, essas bolhas, que eu não sei atrás de qual delas eu vou correr.
Aí eu fico parado, te não-ouvindo, te não-olhando e, sempre, invariavelmente, não sorrindo. Eu fico sem saber o que fazer.
Então tira essa armadura, se o que tu queres é lutar.
(se alguém conhecer o autor, me conte!)
P & B
É que quando você vai, os cheiros vão com você e vai, também, a minha vontade de rimar.
Quando você vai o dia escurece e eu preciso de uma luminária, de uma lamparina e de um vaga-lume pra ver se não me perco no caminho de casa.
Quando você vai, fica tudo preto e branco, muito mais preto inclusive, e as cores esquecem como são, somem.
Resumindo, quando você vai e eu fico, me dá vontade de não sentir, porque é melhor não sentir nada a sentir isso.
[Rani Ghazzaoui]
Livro do autoconhecimento humano
sofremos até a página sete
amamos o próximo até a página três
temos certeza absoluta até a página dois
gostamos de peixe cru até a página nove
achamos a julia roberts bonita até a página cinco
conversamos como adultos até a página seis
pensamos na camada de ozônio até a página oito
acreditamos no ser humano até a página um
aceitamos o mundo como ele é até a página quatro
mas julgamos
julgamos sempre
pela capa.
- Marcelo Ferrari
De que planeta você é?
Oi! Meu nome é Nathalia, tenho 21 anos, moro no Rio de Janeiro, sou Técnica em Edificações e me formo em Letras no fim do ano. Comecei a postar aqui por pura falta do que fazer, e hoje posto pouco por excesso de coisas para fazer!
O /beforeesunsett tem pouco mais de um ano e – surpreendentemente – muitas visitas!!!! A não ser que este contador esteja total maluco tem gente demais vindo aqui ler as doideiras que eu posto e isso me deixa muito feliz!
Comenta cara! Fala teu nome, tua cidade, teus problemas. Fala se tá bom, se tá ruim… mas diz alguma coisa!
Diz de que planeta você é!?
Encarar o sol
Acho que eu digo tantas bobagens porque sei mesmo que no final de tudo a gente não vai se perder. As minhas palavras são ásperas porque as minha emoções oscilam, mas é tudo medo de te perder por algum motivo dessa vida e acabar tendo que me esconder nas minhas mentiras de novo pra, de novo, tentar encarar o sol sem ter você. É por isso que eu sempre seguro sua mão com força, é por isso que meu abraço às vezes te sufoca e que meu coração grita tão alto que te envergonha. A verdade é que eu tinha muitas teorias de liberdade e independência, mas é verdade também que eu, antes de tudo isso, nunca tinha entendido o que era mesmo o amor nessa vida.
- Rani Ghazzaoui