Just in Time

Archive for julho 2008

Eu nem me preocupava com essas coisas antes de conhecer você.
E os dias eram uma seqüência de dominós, um derrubado pelo anterior, derrubando o seguinte. Até que o último caísse da mesa para o chão. (…) Enfim, as peças eram todas iguais e tinham um valor baixo, caindo com a constância e a regularidade do sol que nasce e se põe. Bem simples.
E certa vez – não sei se entre o cair de uma peça ou o empurrar de outra – encontrei com você. Na rua. Talvez tenha sido antes. Sei lá. Os momentos mais determinantes da vida às vezes acontecem antes de acontecer. Mas não quero confundir isso com destino. (…)
E, então, só por tê-la encontrado, um dia, na rua, eu tenho essa rocha nova no peito, fervente e vulcânica. E, de repente, passei a contar os pontos do jogo. Os valores das peças umas a se encaixarem nas outras. E seus olhos me fizeram ver que todas valiam mais do que eu achava que valiam.
E eu nem me preocupava com essas coisas antes de conhecer você… (…)
Porque a verdade é que agora eu tenho dificuldade de aceitar qualquer coisa que venha depois disso tudo que não inclua você. Não tenho medo de ser nada. Tenho medo de ser algo sem você, no entanto.
Pois você garante – só por respirar perto de mim – que haja vida antes. Durante o seu sono, só a sua presença é suficiente para sustentar o manto da noite.
Era isso o que eu queria dizer e fiquei me enrolando um pouco.
Bem simples. (…) Eu nem me preocupava com isso antes de conhecer você e portanto quero que saiba que é um privilégio, uma alegria, uma dádiva inesquecível compartilhar esses anos ao seu lado.
Que venha o depois. Sou, por sua graça, um homem sem medo.

“Dorme
Meu menino, dorme
Respira em meu pescoço
Que eu devo ser feliz
Embora sem esboço
Em prosa, do que quis

Você me faz sonhar
E a vida entre nós dois
Bem pouco pra contar
É muito mais que sonho:
Dói.”

– Marina Lima

Se não estivesse fora de moda eu ia falar de amor. Daquele amor sincero, olhos nos olhos, frio na barriga, aquela dorzinha gostosa de ter muito medo de perder tudo. Daqueles momentos que só quem já amou um dia conhece bem. Daquela vontade de repartir, de conquistar todas as coisas.
Se não estivesse fora de moda eu ia falar de sinceridade. Sabe, aquele negócio antigo de fidelidade, respeito mútuo e outras coisas mais. Aquela sensação que embriaga mais que a bebida, que é ter numa pessoa só tudo o que procuramos em muitas.
E depois eu ia até falar algo como felicidade. Mas é pena que a felicidade, há muito tempo esteja fora de moda..
Eu me sinto feliz por estar fora de moda e você?

Eu olho pra sua tatuagem e pro tamanho do seu braço e pros calos da sua mão e acho que vai dar tudo certo. Me encho de esperança e nada. Vem você e me trata tão bem. Estraga tudo.
Mania de ser bom moço, coisa chata.
Eu nunca mais quero ouvir que você só tem olhos pra mim, ok? E nem o quanto você é bom filho. Muito menos o quanto você ama crianças. E trate de parar com essa mania horrível de largar seus amigos quando eu ligo. Colabora, pô. Tá tão fácil me ganhar, basta fazer tudo pra me perder.
E lá vem ele dizer que meu cabelo sujo tem cheiro bom. E que já que eu não liguei e não atendi, ele foi dormir. E que segurar minha mão já basta. E que ele quer conhecer minha mãe. E que viajar sem mim é um final de semana nulo. E que tudo bem se eu só quiser ficar lendo e não abrir a boca.
Com tanto potencial pra acabar com a minha vida, sabe o que ele quer? Me fazer feliz. Olha que desgraça. O moço quer me fazer feliz. E acabar com a maravilhosa sensação de ser miserável. E tirar de mim a única coisa que sei fazer direito nessa vida que é sofrer. Anos de aprimoramento e ele quer mudar todo o esquema. O moço quer me fazer feliz. Veja se pode.
E aí passa a maior gostosa na rua e ele lá, idolatrando meu nariz. E aí o celular dele toca e ele, putz, perdeu a ligação porque demorou trinta mil horas pra desvencilhar os dedos do meu cabelo. Com tanto potencial pra me dar uns tapas, o moço adora me fazer carinho com a ponta dos dedos.
Não dá, assim não dá. Deveria ter cadeia pra esse tipo de elemento daninho. Pior é que vicia. Não é que acordei me achando hoje? Agora neguinho me trata mal e eu não deixo. Agora neguinho quer me judiar e eu mando pastar. Dei de achar que mereço ser amada. Veja se pode. Trinta anos servindo de capacho, feliz da vida, e aí chega um desavisado com a coxa mais incrível do país e muda tudo. Até assoviando eu tô agora. Que desgraça.
Ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. Foi por muito pouco. Eu senti que a coisa tava vindo. Cruzei os dedos. Cheguei a implorar ao acaso. Vai, meu filho. Só um pouquinho. Me xinga, vai. Me dá uma apertada mais forte no braço. Fala de outra mulher. Atende algum amigo retardado bem na hora que eu tava falando dos meus medos. Manda eu calar a boca. Sei lá. Faz alguma coisa homem!
E era piada. Era piadinha. Ele fez que tava bravo. E acabou. Já veio com o papo chato de que me ama e começou a melação de novo. Eita homem pra me beijar. Coisa chata.
Minha mãe deveria me prender em casa, me proteger, sei lá. Onde já se viu andar com um homem desses. O homem me busca todas as vezes, me espera na porta, abre a porta do carro. Isso quando não me suspende no ar e fala 456 elogios em menos de cinco segundos. Pra piorar, ele ainda tem o pior dos defeitos da humanidade: ele esqueceu a ex namorada. Depois de trinta anos me relacionando só com homens obcecados por amores antigos, agora me aparece um obcecado por mim que nem lembra direito o nome da ex. Fala se tão de sacanagem comigo ou não? Como é que eu vou sofrer numa situação dessas? Como? Me diz?
Durmo que é uma maravilha. A pele está incrível. A fome voltou. A vida tá de uma chatice ímpar. Alguém pode, por favor, me ajudar? Existe terapia pra tentar ser infeliz? Outro dia até me belisquei pra sofrer um pouquinho. Mas o desgraçado correu pra assoprar e dar beijinho.

– Tatiane Bernardi

O sol se pôs, mais um dia se foi e não tenho certeza se fiz tudo que deveria ter feito, mas tenho certeza que fiz o mais importante: Estive com você!

Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr’eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr’eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr’eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava

– Oswaldo Montenegro

Ah, o amor é uma mistura de alegria e medo, de paz por um lado e ameaça de guerra pelo outro. É pensar que a felicidade tem nome e endereço. É temer não está a altura. É sofrer tanto quanto querer. Ele simplesmente é. Não se pode fazer ele desaparecer, é a razão de estarmos aqui. É o topo da vida. E quando você chega ao topo e olha para todos lá em baixo, está preso nele para sempre, pois se tentar mover-se, você cai, você cai…