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Não sei se seria uma grande ironia ou apenas falta de coragem minha de enfrentar o que deveria ser definitivo. Não sei da história alheia, mas posso garantir com alguma segurança que, nas minhas linhas, o princípio, o meio e o fim se embaralham e perdem o sentido ao descobrir novos significados. O tempo todo. Nada é reto o suficiente para que a escala ascendente de acontecimentos seja um gráfico, feito um roteiro de filme americano. Nada parece calculado, ainda que artesanalmente, para que possa refletir uma história linear. O meu princípio eu não sei quando dá a partida e os meus finais não acumulam créditos porque a maior parte das vezes, eu não tomo ciência. Há alguma sensação de estar no meio, quando consigo perceber o grande ‘durante’, quando consigo um tempo de vida menos histérico que a cidade do Rio de Janeiro permite. Não sei se é exclusiva a sensação de urgência. Mas ela me atropela diariamente. E me toma como refém voluntário.

Depois de meses e algumas – poucas – decisões de papel, você me procura, cata-vento, e me faz girar. Você tem essa facilidade indecente, esse canal direto de me acionar tudo ao mesmo tempo. Você fica meses adormecido, eu te coloco em exílio permanente pelo tempo máximo que consigo e num sopro único, você me faz acordar. Você me faz perceber. Você faz a vida parecer mais simples. Você conforta a falta de nexo. Você confirma tudo o que eu neguei. Reivindica tudo o que eu afirmei ser a última vez. Me coloca em questão. Me fala verdades compreensíveis. Me expõe e me desmascara sem fazer muito esforço porque você tem essa facilidade, essa vocação de me oferecer o mundo mais simples. Cata-vento. Feito uma estação do ano. Eu lembro de fingir que te esqueço. Diariamente. Eu te mascaro. Eu te guardo no fundo das minhas histórias sem fim. E você sempre me oferece um recomeço que eu não sei recusar. Nem como usar mais. Você é o pior atalho, o melhor atalho que eu encontrei. Essa tua generosidade de me fazer enxergar melhor me ataca o coração. Sem metáforas. Me ataca o coração.

O que existe entre os nós parece gerar energia para nos manter ao redor um do outro. Nesse trânsito lento, a gente ainda se cuida – a gente se cuida – da maneira que consegue. Nas frestas da possibilidade. Eu cuido do teu terreno. Você cuida do meu. E ambos conhecemos a solidão de ser um só. Ambos compreendemos que embora possamos nos cuidar e nos precisar com urgência e nos abastecermos da sensação de no mundo, termos gente para usar, gente pra se deixar ser usado, a ilusão de estar a dois (ou mais) volta e meia desaparece quando enfrentamos a verdade e o saboroso fato de que estamos sós. Essa independência assustadora de sermos indivíduos encontra alguns vilões fáceis que nos alimentam histórias, que nos injetam cuidados e depois de um tempo – o tempo que levar – se vão. Com a gente, a história parece brindar um ‘tim tim’ agradável. Parece nos ensinar e aqui eu falo por mim, como sempre falei, me ensinar.

Você movimentou tanto. Você me provocou severamente sensações. Você me encantou tantas e tantas vezes, numa mesma frase ou num mesmo olhar. Você me sinalizou as curvas. Você soube respeitar cada tempo meu. E me desafiou em cada mentira. E me abraçou em todas as vezes que eu chorei. Você soube me provar que dizer ‘sim’ ou ‘não’ não significa sentir ‘sim’ ou ‘não’. Fez boa parte dos meus textos. Me entregou uma safra de palavras. Me provocou as melhores cartas que eu fui capaz de criar. Foi o texto que eu mais escrevi de diversas maneiras, sempre querendo dizer a mesma coisa. Você acalmou a minha ansiedade. Despertou com sabedoria que apesar das palavras, o silêncio do olhar é essencial. Eu sempre adorei compreender o teu olhar e sempre tive um orgulho imenso de todas as vezes que você me ouviu sem usar a gramática. Você me manteve por perto mesmo quando eu não quis. E quando eu te feri, você não me deixou. E feridos, soubemos nos respeitar sem abandonar a idéia de futuro.

Por isso eu queria dizer que depois de dez anos, é um prazer estar presente. Entregues a um amor de irmãos, de amigos, de homens, de gente que se ama e não se abandona por não querer, por não saber como, por tantos e tantos motivos que só você sabe, que só eu sei. Você é uma incrível poesia. E eu venho pensando e remando em direção oposta – para variar – logo eu, que falo tanto em mínimos óbvios. Dez anos atrás, a gente se encontrava e se estranhava e não tínhamos a dimensão do que ia acontecer. Eu lembro de te querer tanto e em voz alta. Eu lembro de você querer sempre mais o mundo. Sem metáforas, você sempre quis o mundo. Sempre transbordou levando quem estivesse ao lado. E permaneci até agora. E permanecemos e eu queria mais uma vez, pela primeira vez, dizer que te amo. E te oferecer o ponto de interrogação, o meu ponto de interrogação, que é tudo o que eu sempre te entreguei. E você não recusou.

– Egídio La Pasta Jr

Eu já sonhei muito com você. Daqueles sonhos acordados que muitas vezes já me ocorreram: tolices do tipo ganhar um cafuné, passar uma tarde a dois, sem preocupação com o que havia além de nós. Daqueles sonhos que a gente sonha quando dorme. Situações meio Lewis Carrol. Fantásticas, fragmentadas que se dissipam com o próprio sono e muitas vezes não chegam a formar uma lembrança, fica apenas a certeza de você no sonho. Já tive sonhos mais realistas também. De situações que a gente viveu juntos e que se resolviam de outra forma, dentro de outro contexto. Já sonhei que havia entre nós algum afeto que nos infernizava o ciúme. Já sonhei também que a gente morava em países diferentes e se via todas as noites antes de dormir nas telas dos computadores.
A vida é sonho, eu não sei se sei.
Mas essa noite, eu sonhei que você morria. E que quem me avisava era a sua irmã. Ela me avisava com muita calma e falava o teu apelido que eu nunca te chamei e não sei bem o motivo. E ela me avisava depois de tudo, bem depois de tudo. Quando eu soube que você morreu, você já havia ido embora. Todos os seus amigos tinham se despedido de você no velório e eu fui deixado de fora. Fisicamente. Eu não te disse adeus. Sua irmã me dava a notícia e me dizia que era para eu passar lá no apartamento para escolher algum objeto seu para guardar de lembrança.
Quando eu acordei, os olhos molhados, o travesseiro molhado. Comentei com a minha avó que sempre se interessou por sonhos e ela me disse que sonhar com morte é vida para a pessoa, o que me alivia um pouco. Lembrei da minha madrinha que se foi em outubro. E da sensação aterrorizante da falta de chão ao receber a notícia. Eu senti a perna perder a força, como no meu desmaio em Copacabana, e me lembrei exatamente das suas palavras nervosas naquela ocasião: ‘volta, volta, volta’. E eu voltei.
Eu não sei enfrentar a morte, eu não sei. Eu muitas vezes também não sei enfrentar a vida. Eu quis te escrever porque você ainda é o cara para quem eu quero correr. Que é destino de boa parte do que eu escrevo, sem nem escolher, sem nem ter sido consultado, mas que é minha melhor direção e isso me basta. Eu sei que a gente anda longe geograficamente e sei que eu perdi um tanto da minha tolerância em relação ao grupo e absolutamente para proteger o que ainda havia de bacana, eu preferi ficar de longe e não doeu. Não foi nada planejado. Não foi pensado para produzir reações ou efeitos. Foi. Está sendo.
Eu amo você. Diferente. E eu vou torcer para que você compreenda essa diferença, que é apenas uma diferença, sem que eu possa explicar ou metaforizar. O que existe entre nós e que me faz acreditar nessa diferença, é ainda uma palavra – e uma sensação – que eu não sei descrever. E talvez eu te escreva tanto para saber se um dia eu consigo me aproximar do significado dessa sensação sem verbo.
Eu não quero te perder.
Acho que essa frase seria a síntese de tudo o que foi escrito.


– Egídio La Pasta Jr.

‘Eu gosto de você. Eu fico assustado cada vez que eu vou te encontrar. Quando eu me aproximo, eu não sei o que fazer com as mãos, com os olhos. Eu não sei o que fazer. Como proceder. Você por perto é como se um prédio estivesse pegando fogo e eu estivesse solto pelos corredores. Eu admiro a sua inteligência. Compreendo ou pelo menos, tento compreender o teu ponto-de-vista. Para que eu não o desrespeite. Para que eu não avance sobre ele com as minhas idéias velhas sobre o mundo. Eu acho você atraente. E morro de medo que todo mundo descubra isso porque se eu já não tenho chance agora, imagine quando a população carioca te descobrir? Adoro o teu humor. A rapidez do teu raciocínio. Adoro a simplicidade do layout do seu blog. O som da sua voz que já vem junto com um sorriso. Adoro a amiga que é tão sua e que você já me entregou de presente. Gosto do carinho e da forma atenciosa como nos encaramos. E dos silêncios que no ínício incomodavam e hoje em dia, descortinam.’

– Egídio La Pasta

Eu gosto de você, é isso. Não existe outra forma de te dizer isso. Me desculpe, eu me sinto bobo, frágil, imaturo. Eu gostaria de não ter que passar por essa situação mais uma vez e você provavelmente vai me dizer lindamente que me vê como um amigo, mas que em nenhum momento nos imaginou como um casal e que gosta muito de mim, mas que a minha amizade é tão importante, que não devemos estragar tudo isso, sabe que eu odeio essa palavra – tudo – detesto quando alguém me deseja tudo de bom… o que é esse tudo? Eu gosto de você. Desde a primeira vez que eu te vi. Antes de te ver na verdade, eu já tecia pensamentos românticos em relação a nós dois…”

– Mínimos Óbvios.