Just in Time

Archive for agosto 2010

nós que nos amávamos tanto
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho

– Martha Medeiros

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Tem dias que eu acordo querendo ser Joana D´Arc. Vestir minha armadura de ferro para enfrentar os meus demônios. Ter a força de lutar pelo que eu acredito, nem que o final da minha história seja na fogueira. Em outros queria ser Agatha Christie e inventar pra minha vida grandes mistérios em viagens pelo Orient Express. Ou talvez como Clarice Lispector, responder com páginas cínicas aos tapas que a vida às vezes distribui. Quem sabe até me embriagar e cantar as amarguras dos meus amores com a voz rouca da Billie Holiday. Ser Frida Kahlo e assumir todas as minhas diferenças, pintar numa tela as minhas entranhas, me transformar na musa de Serge Gainsbourg, prazer, sou Jane Birkin. Atirar brioches pela janela e ser lembrada como Maria Antonieta, a mulher mais fútil da história. Tem dias para tudo, até para ficar feliz de ser apenas eu.

– Ana Reber

Eu já sonhei muito com você. Daqueles sonhos acordados que muitas vezes já me ocorreram: tolices do tipo ganhar um cafuné, passar uma tarde a dois, sem preocupação com o que havia além de nós. Daqueles sonhos que a gente sonha quando dorme. Situações meio Lewis Carrol. Fantásticas, fragmentadas que se dissipam com o próprio sono e muitas vezes não chegam a formar uma lembrança, fica apenas a certeza de você no sonho. Já tive sonhos mais realistas também. De situações que a gente viveu juntos e que se resolviam de outra forma, dentro de outro contexto. Já sonhei que havia entre nós algum afeto que nos infernizava o ciúme. Já sonhei também que a gente morava em países diferentes e se via todas as noites antes de dormir nas telas dos computadores.
A vida é sonho, eu não sei se sei.
Mas essa noite, eu sonhei que você morria. E que quem me avisava era a sua irmã. Ela me avisava com muita calma e falava o teu apelido que eu nunca te chamei e não sei bem o motivo. E ela me avisava depois de tudo, bem depois de tudo. Quando eu soube que você morreu, você já havia ido embora. Todos os seus amigos tinham se despedido de você no velório e eu fui deixado de fora. Fisicamente. Eu não te disse adeus. Sua irmã me dava a notícia e me dizia que era para eu passar lá no apartamento para escolher algum objeto seu para guardar de lembrança.
Quando eu acordei, os olhos molhados, o travesseiro molhado. Comentei com a minha avó que sempre se interessou por sonhos e ela me disse que sonhar com morte é vida para a pessoa, o que me alivia um pouco. Lembrei da minha madrinha que se foi em outubro. E da sensação aterrorizante da falta de chão ao receber a notícia. Eu senti a perna perder a força, como no meu desmaio em Copacabana, e me lembrei exatamente das suas palavras nervosas naquela ocasião: ‘volta, volta, volta’. E eu voltei.
Eu não sei enfrentar a morte, eu não sei. Eu muitas vezes também não sei enfrentar a vida. Eu quis te escrever porque você ainda é o cara para quem eu quero correr. Que é destino de boa parte do que eu escrevo, sem nem escolher, sem nem ter sido consultado, mas que é minha melhor direção e isso me basta. Eu sei que a gente anda longe geograficamente e sei que eu perdi um tanto da minha tolerância em relação ao grupo e absolutamente para proteger o que ainda havia de bacana, eu preferi ficar de longe e não doeu. Não foi nada planejado. Não foi pensado para produzir reações ou efeitos. Foi. Está sendo.
Eu amo você. Diferente. E eu vou torcer para que você compreenda essa diferença, que é apenas uma diferença, sem que eu possa explicar ou metaforizar. O que existe entre nós e que me faz acreditar nessa diferença, é ainda uma palavra – e uma sensação – que eu não sei descrever. E talvez eu te escreva tanto para saber se um dia eu consigo me aproximar do significado dessa sensação sem verbo.
Eu não quero te perder.
Acho que essa frase seria a síntese de tudo o que foi escrito.


– Egídio La Pasta Jr.

Querido Caio,

Decidi liberta-lo. Decidi esquece-lo. Amar é isso, não é? Abrir mão de si mesmo em função da felicidade do outro. E no fundo não ia dar certo mesmo. Justificativa e negação são sintomas do fim de qualquer coisa. Tinha que terminar um dia, não tinha? Então foi uma boa hora, porque ainda o amo. E é tão triste terminar quando já não se tem nem mais respeito pelo outro, a gente fica acabado, aquele sentimento de frustração, de que perdeu um tempão da vida. Mas viveu, ao menos. Justificativa e afirmação são sintomas de quem está no caminho de superar toda a história. Afinal, não havia planos pro futuro. A história toda não tinha futuro. E o futuro, uma hora tinha que começar. Sem ele, obviamente. Mas então eu pergunto, se só existem razões boas, se o amor é pra nos elevar, por que dói tanto?

Lágrimas, F.

 – Poetriz

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“Hoje, eu ouço as canções que você fez pra mim
Não sei por que razão tudo mudou assim
Ficaram as canções e você não ficou”