Just in Time

Archive for the ‘Alessandro Martins’ Category

Não que eu despreze você. Se eu pensasse em você, eu desprezaria. Como disse Humphrey Bogart em Casablanca. Não que eu queira lembrar ou esteja preso a algum passado. Eu apenas apaguei você, como Jim Carrey em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Não que, mesmo esquecendo, eu ignore que você exista. Eu apenas vi o seu rosto deformado, como Penélope Cruz viu o de Tom Cruise em Vanilla Sky (e você também viu o meu) e disse: – Na outra vida, quando formos gatos – preferindo deixar para uma outra ocasião. Ou encarnação. Não que eu me orgulhe de ser assim. Eu apenas sou. E eu sei quem eu sou. Como disse Mickey Rourke em Coração Satânico. Não que você possa esperar só o pior de mim. Mas é que eu adoro cheiro de napalm ao amanhecer. Como disse Robert Duvall em Apocalypse Now. A grande questão é que a vida não é uma série, com continuação na semana seguinte. A grande questão é que a vida é mais como um filme. Começa pelos trailers termina nos créditos. As luzes se acendem. E, finalmente, quando todos vão embora, o faxineiro varre tudo, apaga as lâmpadas e tranca tudo.
Quando olhamos para trás, ao final, parece que foram apenas duas horas. Três, no máximo.
E the end.

– Alessandro Martins

A linguagem é condicionada pela realidade.
Os esquimós têm umas sete ou oito palavras diferentes para designar a neve de acordo com suas características. O que para nós, não-esquimós, é apenas uma monótona vastidão branca, para eles é diversidade, uma variedade que sabem identificar, classificar, nomear e detalhar.
No entanto, conhecem pouco as árvores e, por isso, chamarão uma figueira, um eucalipto e um carvalho apenas de árvore, sem talvez perceber que há uma diferença entre elas, assim como nós em relação às diferentes neves, cujas particularidades são tão evidentes para eles.
Os esquimós estão em um mundo de neve, cercados por neve, convivendo com a neve e, por isso, a conhecem em sua diversidade. Nós não chegamos a estar cercados de árvores, mas conhecemos também suas diferenças.
Nós, esquimós e não-esquimós, no entanto, chamamos muitas coisas diferentes por um único nome: amor.
Possivelmente, em nosso convívio não haja tanto amor quanto neve no Alasca. E talvez por isso não tenhamos nomes diferentes no nosso cotidiano para cada uma de suas inúmeras possibilidades.
Quem sabe, sequer exista tanto amor quanto árvores nas grandes cidades. E há tão poucas árvores por aí.
Talvez eu veja neve. Mas na verdade é sal.

 – Alessandro Martins

Ontem fiz umas 12 séries de 10 barras, ou algo assim, enquanto você dormia.
Não preguei o olho.
Então, fiz as 12 séries de barras. Alternadas com o teclado e a tela do computador. Hoje, meu corpo dói. Ao menos, ao amanhecer, dormi.
Acontece que, como sempre, isso de amar nos coloca em enrascadas. Situações em que precisamos abrir mão de coisas. Ou fazer quem amamos abrir mão de coisas.
A segunda opção certamente é também abrir mão: pois desistimos de estar ao lado de alguém no pleno exercício de sua liberdade. E restringir a liberdade de alguém é sempre optar por menos. Para si e para o outro, apostar nas grades e não no espaço que há entre elas.
O caminho até essa liberdade é marcado pelos pedaços que deixamos ao longo dele. Talvez esses fragmentos não sejam importantes de verdade, mas sempre dói no momento em que os perdemos. Os apêndices se desconectam na busca de um corpo essencial.
Nem sempre o certo é o mais fácil. Quase nunca é. Se fosse, não haveria tantas pessoas agindo errado no exato instante quando têm a oportunidade de agir certo. O errado é aceitável. Somos humanos, somos do mundo.
Mas quero tentar fazer o contrário do que o mundo faria. Esse medo que sinto agora – embora eu esteja repleto das certezas que só o seu olhar me dá – é o medo do mergulhador que salta da pedra, calculando o segundo quando a maré trará maior profundidade para seu mergulho. Ele pode errar, mas ainda assim, salta.
Foda-se o medo.
O que vem depois do encontro com a água é um mistério a que ele se entrega.
Esse receio, que me manteve acordado esta noite, é aquilo que terei de enfrentar. Por isso, talvez, tenha feito tantas barras, erguido meu corpo tantas vezes contra a força da gravidade. Exercícios não fazem muito sentido mesmo. Mas sou forte. E a dor que sinto em meu corpo, agora, e o sono a que cheguei e o despertar, com o seu corpo ao alcance do toque de minha mão, atestam isso.

Conheço milhares de homens que seriam capazes de dar o mundo por uma garota. Mas que seriam incapazes de lhe dar uma flor. Às vezes, tudo o que uma mulher quer é isso. Uma flor, singela e complexa.
Por isso, tudo o que quero lhe dar hoje são rosas.
Mas não só isso. Quero dar rosas a você nos momentos mais inconvenientes. Quero que elas lhe cheguem quando estiver no ponto de ônibus carregada de pacotes, para que decida entre o mundo prático das compras parceladas e o mundo abstrato e incerto de um buquê. Que elas sejam entregues quando estiver a dar aulas e o moço as ofereça fazendo uma mesura diante dos alunos. E você não saiba o que dizer a tais salamaleques. Quando estiver com uma amiga, a conversar sobre como o tempo passa rápido hoje em dia. E também quando, depois de ter recebido essa braçada e estiver se despedindo dela, receba outra. No banho, você ouvirá a campainha tocar e atenderá com espuma na orelha esquerda. Mais rosas. No almoço, em um restaurante, chegarão as flores no momento de pagar a conta. De madrugada, alguém baterá à porta e deixará o presente como se faz a um órfão de filme antigo. Na sala de espera de algum dentista, rosando sua espera e a sua face. E os outros pacientes ficarão sem saber se olham ou ficam apenas com dor de dente. Na estrada, no mato, na fazenda, no táxi, na chuva, no sol, quando estiver nua, quando estiver vestida, quando estiver feliz, quando estiver triste, quando estiver apenas muito pensativa, quando estiver calada, pois está com sono, quando estiver correndo, andando, empinando pipa, jogando basquete, cozinhando, passeando, esperando e partindo, lavando e secando.
Até em sonhos quero que estas minhas rosas lhe cheguem e que elas permaneçam quando acordar, enchendo-lhe o quarto de pétalas dorminhocas.
A cada piscar de olhos, uma rosa.
A cada passo, outra.
A cada dia, uma nova.
E de matizes de vermelho mais vermelhos e mais nobres e belos que se poderia esperar daquilo que é real e todo mundo pensa que não é. São dias de tempestade. Porém posso assistir às ondas, elas são belas e não mais assustadoras. É que estou apaixonado, mas você me ensinou a andar sobre as águas. Ninguém me vê e não preciso mais salvar o mundo.
Por isso lhe dou estas rosas.
Você me deu coisas sem oferecer e sem que eu pedisse. É como chegar à vida.
Aqui estamos nós. De surpresa. Inconvenientemente felizes.

Sobre você, devagar. Sobre seus olhos, movimento-me como as marés. Eu os admiro em câmera lenta como se na direção deles desprendesse os pés da pedra no salto final, num mergulho. São olhos de oceano, tão claros que até o mundo fica mais nítido em seu reflexo. Sobre você, devagar. O mundo não se resume mais nos quadris, mas onde quer que haja contato, onde quer que você me engula e eu engula você. Somos ondas, somos espuma. Isso que pingou no seu rosto, não é lágrima de alegria. É água do mar.

No dia que em que surgiu você, saltei para fora do silêncio – e o silêncio é uma coisa densa. O sol pulverizou pedras. E o dia em que você está começa não com um sorriso, mas gargalhadas. é uma espécie de hino feito de aurora. Finalmente, depois de tanto tempo, entendo a palavra júbilo. Pássaro azul vezes mil, doce preferido vezes mil, beijo único, beijo primeiro.

Beijo, sim, seus pés que a trouxeram até mim. Percorro, sim, minha boca por todas, todas mesmo, todas as partes de que é feita você. Assim, meus lábios não dizem o seu nome. Mas, ao contrário, o relevo de seu corpo explica como devo chamá-la quando estiver sozinho e quiser sonhar com sua pele. Seu corpo tem um nome ainda a ser apreendido. Reconheço-me no seu relevo com a língua, sua alma é um sabor.

Sobre você, devagar, como num sábado, quando não há pressa e não há vida lá fora.
Você descobre-me movimentos que nem eu imaginava. Decifra em meu sorrir não os dentes, sempre mais para morder, mas um detalhe da face. No falar, não as palavras, mas uma sutileza nas pausas, que já se flagra a imitar, sem querer. Estar junto é estar meio igual.

Sobre você, devagar. Como se o mundo fosse ter fim no próximo instante. Pressa pra quê?
Deixe que o telefone toque. Deixe que alguém bata à porta. Deixe que as contas cheguem. Que os advogados me processem. Deixe que os vizinhos, sempre eles, reclamem do barulho. Deixe que o prédio pegue fogo e que a noite não caia e que o sol não nasça e que os relógios parem e que os animais comecem a falar. Deixe que a estupidez tome conta do planeta. Deixe que a mentira tome conta do planeta. Deixe que a indecência tome conta do planeta. Neste quarto, sobre você, devagar, contaminamos tudo o que nos cerca com sabedoria e verdade. Fui santificado ao aconchegar-me entre suas pernas. Sinto realmente luzes em torno da cabeça. Quero você em mim como um farol e em você sempre minha atenção voltada para onde devo ir. Somos nós os navios a atravessar o improvável. Diz-me para onde aponta sua bússola para que eu saiba para onde girar meu leme.

Sobre você, devagar, as histórias passam rápido. Pois paramos de repente, sem avisar. Tudo nos ultrapassa. Árvores crescem em torno. Precisamos de sombra, precisamos de frutas, precisamos de abrigo. É vital que aqui permaneçamos sem interrupções. É vital que o meu sangue seja o seu e por isso não pode haver tais interrupções. Todos sabem que o fluxo das artérias deve ser constante a fim de que haja vida. Aqui, sobre você, devagar, há muita.
Não sei onde estou, não sei mais de onde vim. Dispenso esses conhecimentos, que agora só resta um caminho em frente e corro para esses lados. Sou o último de uma espécie.

Sobre você, devagar, como se nunca fosse acabar. Isso, agora, foi só uma gota. Dizem que o mar é infinito. Eu mesmo nunca vi o fim.

Você sai de manhã. Ficará o dia inteiro fora.
Tiro o fone do gancho. Desligo o celular. Fecho o notebook. Só para ter certeza de que, caso eles não toquem, não seja porque você esqueceu de telefonar. Ou de mandar um email.
Para garantir, saio de casa.
A fim de que eu não corra o risco de não receber o telegrama que você talvez pudesse não mandar.
A fim de não ter de esperar você voltar caso você não volte.
Ser prevenido é inesperar.

Eu nem me preocupava com essas coisas antes de conhecer você.
E os dias eram uma seqüência de dominós, um derrubado pelo anterior, derrubando o seguinte. Até que o último caísse da mesa para o chão. (…) Enfim, as peças eram todas iguais e tinham um valor baixo, caindo com a constância e a regularidade do sol que nasce e se põe. Bem simples.
E certa vez – não sei se entre o cair de uma peça ou o empurrar de outra – encontrei com você. Na rua. Talvez tenha sido antes. Sei lá. Os momentos mais determinantes da vida às vezes acontecem antes de acontecer. Mas não quero confundir isso com destino. (…)
E, então, só por tê-la encontrado, um dia, na rua, eu tenho essa rocha nova no peito, fervente e vulcânica. E, de repente, passei a contar os pontos do jogo. Os valores das peças umas a se encaixarem nas outras. E seus olhos me fizeram ver que todas valiam mais do que eu achava que valiam.
E eu nem me preocupava com essas coisas antes de conhecer você… (…)
Porque a verdade é que agora eu tenho dificuldade de aceitar qualquer coisa que venha depois disso tudo que não inclua você. Não tenho medo de ser nada. Tenho medo de ser algo sem você, no entanto.
Pois você garante – só por respirar perto de mim – que haja vida antes. Durante o seu sono, só a sua presença é suficiente para sustentar o manto da noite.
Era isso o que eu queria dizer e fiquei me enrolando um pouco.
Bem simples. (…) Eu nem me preocupava com isso antes de conhecer você e portanto quero que saiba que é um privilégio, uma alegria, uma dádiva inesquecível compartilhar esses anos ao seu lado.
Que venha o depois. Sou, por sua graça, um homem sem medo.