Just in Time

Archive for maio 2009

E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas?

Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual.

O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.

– Caio Fernando Abreu

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Olha eu,

Ouvindo teus sambas, curtindo teu futebol, assistindo teus filmes, dizendo ‘oi’ pro’s teus amigos, agradando tua familia.

Olha eu,

Fazendo tua comida, lavando tuas roupas, limpando teus sapatos, colocando tua sujeira pra debaixo do tapete.

Olha eu,

Querendo que você se lembre de mim também, decorando tuas mensagens, lendo os teus olhares.

Olha eu,

Apaixonada pelo cara errado (de novo.)

 

 

Retirado daqui: http://priconceitos.wordpress.com/

As pessoas se encaixam. Elas precisam se encaixar. Já faz um tempo que eu penso sobre isso observando os casais no meu trabalho. Sou cobrador de estacionamento num grande shopping. Fico sete horas por dia sentando numa cabine, atrás de um vidro, recebendo papeizinhos para enfiar numa máquina que verifica o tempo que o carro ficou estacionado. Cobro o valor devido, recebo o dinheiro, dou o troco quando necessário, e devolvo o cartão liberado para sair. É basicamente isso. Não, na verdade é só isso mesmo. O máximo de emoção que acontece é quando alguém perde o papel, aí tem que preencher uma ficha, mostrar o documento, pagar o valor de ticket perdido, geralmente a pessoa reclama, mas pra isso tem meu supervisor pra resolver, eu nem me meto. É ele que eu chamo também quando algum bêbado cisma em não pagar.

Mas como eu ia dizendo, as pessoas se encaixam. O fato de não ter muito o que fazer sentado sozinho na cabine fez com que eu tenha começado a prestar bastante atenção nas pessoas que  passam por ali todos os dias, e fui reparando como os iguais se procuram. A menininha baixinha de cabelo rosa com saia curtinha e meia até o joelho está sempre acompanhada de um descabelado de jeans e camiseta destonados, calçando um All-Star. O cara de camisa pólo e calça justa com sapato marrom vem acompanhado da namorada com cabelo liso de chapinha, argolas grandes nas orelhas, bastante maquiagem e uma roupa de grife da moda. O que veste uma coisa que não combina com a outra normalmente está acompanhado de uma moça que coloca uma roupa que não fica bem no corpo dela e ela não percebe.

Lembro de quando eu estava no colégio e discutia com minhas amigas que os opostos se atraem. Tudo besteira. Nunca vi uma roqueira tatuada acompanhando um executivo com cara de que trabalha na bolsa. Ela no máximo vai estar com um roqueiro que goste de uma banda que ela odeia. Mais que isso não dá. Não encaixa, e as pessoas precisam se encaixar.

Eu achava que encaixava com Luzia, minha ex-namorada. Ela trabalha no atendimento ao cliente do shopping. É ela que chama as pessoas pelo microfone central quando alguma criança se perde dos pais, devolve carteiras perdidas, essas coisas. Ela é muito inteligente. Um dia na hora do lanche eu estava caminhando pela praça de alimentação e a vi sentada num banco no canto lendo uma revista dessas de celebridade. A capa era uma atriz que tinha acabado de casar e já tava separando. Sentei numa mesa que dava pra olhar pra ela meio escondido e até esqueci do meu sanduíche. Uma hora ela levantou os olhos na minha direção e sorriu. Fiquei vermelho, desconcertado, achei que estava sendo discreto, e morrendo de vergonha me levantei e fui até ela. Perguntei se podia sentar.

Pode, claro. ela respondeu meio sem graça. Desculpe. eu disse. Pelo que?, ela. Por ter ficado te olhando tanto, eu. Você estava me olhando? Estava. Eu não reparei. Jura?

Ela não estava rindo de mim, era do motivo da separação da tal atriz. O marido não era artista também, eles disseram que não dava pra conciliar as agendas, pá, acabou. É, eles não encaixaram, eu sorri. Ela correspondeu. Ficamos papeando mais vinte minutos até o fim do nosso horário de descanso e marcamos de sair uma outra hora. Foi ótimo. Ela gostava dos mesmos filmes de comédia com o Eddie Murphy que eu, se amarrava nos programas de auditório do Silvio Santos, jogava toda semana na mega-sena. A gente saia pra passear de mãos dadas no parque nas nossas folgas e eu me sentia muito feliz.

Um dia, sem mais nem menos, Luzia me disse que não queria mais. Por que?, eu perguntei. Não sei, preciso viver coisas diferentes, ela me disse. Diferentes como?, eu quis saber. Eu não posso viver isso com você?, insisti.

Ela não me disse mais nada. Apenas abaixou a cabeça e chorou baixinho segurando minha mão. Chorei também. Dali pra frente não nos falamos mais no shopping nem em lugar nenhum. Ela evita passar pela minha cabine, eu não vou mais na praça de alimentação. E eu descobri que ser feliz e entender alguém não basta pra encaixar. É alguma coisa além disso. Luzia e eu não éramos tão perfeitos como eu achava. E desde então eu fico aqui sentado recebendo os papeizinhos, olhando pros outros e tentando entender o porquê de certas colas darem certo. Talvez um dia eu descubra. E acho que eu vou, sim. Saber o que não vai funcionar até parece fácil, mas e o que vai? Deve ter alguém aí fora que encaixe comigo. Todo mundo precisa encaixar com alguém.

– Pedro Necshiling

Não sei bem o que é, mas há algo presente em cada centímetro do teu sorriso que me dá vontade de chutar a porta que dá pra rua e sair correndo, sem saber onde fica a minha casa.

Há algo que me priva de usar todas as artimanhas que eu colecionei, que me faz esquecer todas as minhas frases de efeito e que faz com que tudo que eu faça/diga pareça de uma imbecilidade infantil.

Não sei bem o que é, mas há algo presente em cada palavra que tu me apontas, que sopra em meu ar essas bolhas de sabão. A trajetória dessas pequenas bolsas de ar é tão imprevisível, tão frágil, que eu fico com medo de tocá-las. E são tantas, essas bolhas, que eu não sei atrás de qual delas eu vou correr.

Aí eu fico parado, te não-ouvindo, te não-olhando e, sempre, invariavelmente, não sorrindo. Eu fico sem saber o que fazer.

Então tira essa armadura, se o que tu queres é lutar.

– Lucas Silveira

É que quando você vai, os cheiros vão com você e vai, também, a minha vontade de rimar.
Quando você vai o dia escurece e eu preciso de uma luminária, de uma lamparina e de um vaga-lume pra ver se não me perco no caminho de casa.
Quando você vai, fica tudo preto e branco, muito mais preto inclusive, e as cores esquecem como são, somem.
Resumindo, quando você vai e eu fico, me dá vontade de não sentir, porque é melhor não sentir nada a sentir isso.

– Rani Ghazzaoui