Just in Time

Archive for dezembro 2009

Envio esta carta porque nunca mais quero você na minha frente. E dessa vez falo sério.

Nunca mais quero ouvir a sua voz, mesmo que seja se derramando em desculpas. Nunca mais quero ver a sua cara, nem que seja se debulhando em lágrimas arrependidas. Quero que você suma do meu contato, igual a um vírus ao qual já estou imune.

A verdade é que me enchi. De você, de nós, da nossa situação sem pé nem cabeça. Não tem sentido continuarmos dessa maneira. Eu, nessa constante agonia, o tempo todo imaginando como você vai estar. E você, numas horas doce, noutras me tratando como lixo. Não sou lixo. Tampouco quero a doçura dos culpados, artificial como aspartame.

Fico pensando como chegamos a esse ponto. Como nos permitimos deixar nosso amor acabar nesse estado, vendido e desconfiado. Não quero mais descobrir coisas sobre você, por piores ou melhores que possam ser. Não quero mais nada que exista no mundo por sua interferência. Não quero mais rastros de você no meu banheiro.

Assim, chega. Chega de brigas, de berros, de chutes nos móveis. Chega de climas, de choros, de silêncios abismais. Para quê, me diz? O que, afinal, eu ganho com isso? A companhia de uma pessoa amarga, que já nem quer mais estar ali, ao meu lado, mas em outro lugar? O tédio a dois – essa é a minha parte no negócio? Sinceramente, abro mão.

Vou atrás de um outro jeito de viver a minha vida, já que em qualquer situação diferente estarei lucrando. Mas antes faço questão de te dizer três coisas.

Primeira: você não é tão interessante quanto pensa. Não mesmo. Tive bem mais decepções do que surpresas durante o tempo em que estivemos juntos.

Segunda: não vou sentir falta do teu corpo. Já tive melhores, posso ter novamente, provavelmente terei. Possivelmente ainda esta semana.

Terceira: fiquei com um certo nojo de você. Não sei por quê, mas sua lembrança, hoje, me dá asco. Quando eu quiser dar uma emagrecida, vou voltar a pensar em você por uns dias.

Bom, era isso. Espero que esta carta consiga levantar você do estado deplorável em que se encontra. Mentira. Não espero nenhum efeito desta carta, em você, porque, aí, veria-me torcendo pela sua morte. Por remorso. E como já disse, e repito, para deixar o mais claro possível, nunca mais quero saber de você.

Se, agora, isso ainda me causa alguma tristeza, tudo bem. Não se expurga um câncer sem matar células inocentes.

Adeus, graças a Deus.

– Fernanda Young

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Quando o amor acaba? Em qual momento, segundo, em qual dos beijos a gente já não era mais a gente? Entre qual filme eu deixei de gostar de você? Será que foi no momento em que o microondas apitou dizendo que a pipoca estava pronta? Será que aquela linha na escova de dentes marcando a hora de trocar foi quem ditou o nosso fim? Se apenas eu soubesse quando isso aconteceu. O que fez de nós dois estranhos, dois mortos que jantam? A gente presta atenção na conversa da mesa ao lado. Nossos beijos são burocráticos, nosso sorriso é carimbado por uma impressão de fim. Somos o casal da pizzaria de domingo, que senta um ao lado do outro com dois copos de chopp intocados. Eu tomo banho de porta fechada, você não me pede mais livros emprestados. Sua mania de morder os lábios agora me irrita. Você olha para mim do mesmo jeito que olha a cortadora de frios na padaria. Nossos planos de futuro soam como bobagens adolescentes. Eu não levanto mais cedo que você só para escovar os dentes e dar o primeiro beijo fresco da manhã.  E acho que ultimamente meu jornaleiro me conhece mais. Eu não vejo mais graça no que você fala, você não lê mais o que eu escrevo. Assim como um texto, de uma linha para outra, simplesmente acabou.

– Ana Reber

Não que eu despreze você. Se eu pensasse em você, eu desprezaria. Como disse Humphrey Bogart em Casablanca. Não que eu queira lembrar ou esteja preso a algum passado. Eu apenas apaguei você, como Jim Carrey em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Não que, mesmo esquecendo, eu ignore que você exista. Eu apenas vi o seu rosto deformado, como Penélope Cruz viu o de Tom Cruise em Vanilla Sky (e você também viu o meu) e disse: – Na outra vida, quando formos gatos – preferindo deixar para uma outra ocasião. Ou encarnação. Não que eu me orgulhe de ser assim. Eu apenas sou. E eu sei quem eu sou. Como disse Mickey Rourke em Coração Satânico. Não que você possa esperar só o pior de mim. Mas é que eu adoro cheiro de napalm ao amanhecer. Como disse Robert Duvall em Apocalypse Now. A grande questão é que a vida não é uma série, com continuação na semana seguinte. A grande questão é que a vida é mais como um filme. Começa pelos trailers termina nos créditos. As luzes se acendem. E, finalmente, quando todos vão embora, o faxineiro varre tudo, apaga as lâmpadas e tranca tudo.
Quando olhamos para trás, ao final, parece que foram apenas duas horas. Três, no máximo.
E the end.

– Alessandro Martins