Just in Time

A Origem

Posted on: dezembro 15, 2010

Não sei se seria uma grande ironia ou apenas falta de coragem minha de enfrentar o que deveria ser definitivo. Não sei da história alheia, mas posso garantir com alguma segurança que, nas minhas linhas, o princípio, o meio e o fim se embaralham e perdem o sentido ao descobrir novos significados. O tempo todo. Nada é reto o suficiente para que a escala ascendente de acontecimentos seja um gráfico, feito um roteiro de filme americano. Nada parece calculado, ainda que artesanalmente, para que possa refletir uma história linear. O meu princípio eu não sei quando dá a partida e os meus finais não acumulam créditos porque a maior parte das vezes, eu não tomo ciência. Há alguma sensação de estar no meio, quando consigo perceber o grande ‘durante’, quando consigo um tempo de vida menos histérico que a cidade do Rio de Janeiro permite. Não sei se é exclusiva a sensação de urgência. Mas ela me atropela diariamente. E me toma como refém voluntário.

Depois de meses e algumas – poucas – decisões de papel, você me procura, cata-vento, e me faz girar. Você tem essa facilidade indecente, esse canal direto de me acionar tudo ao mesmo tempo. Você fica meses adormecido, eu te coloco em exílio permanente pelo tempo máximo que consigo e num sopro único, você me faz acordar. Você me faz perceber. Você faz a vida parecer mais simples. Você conforta a falta de nexo. Você confirma tudo o que eu neguei. Reivindica tudo o que eu afirmei ser a última vez. Me coloca em questão. Me fala verdades compreensíveis. Me expõe e me desmascara sem fazer muito esforço porque você tem essa facilidade, essa vocação de me oferecer o mundo mais simples. Cata-vento. Feito uma estação do ano. Eu lembro de fingir que te esqueço. Diariamente. Eu te mascaro. Eu te guardo no fundo das minhas histórias sem fim. E você sempre me oferece um recomeço que eu não sei recusar. Nem como usar mais. Você é o pior atalho, o melhor atalho que eu encontrei. Essa tua generosidade de me fazer enxergar melhor me ataca o coração. Sem metáforas. Me ataca o coração.

O que existe entre os nós parece gerar energia para nos manter ao redor um do outro. Nesse trânsito lento, a gente ainda se cuida – a gente se cuida – da maneira que consegue. Nas frestas da possibilidade. Eu cuido do teu terreno. Você cuida do meu. E ambos conhecemos a solidão de ser um só. Ambos compreendemos que embora possamos nos cuidar e nos precisar com urgência e nos abastecermos da sensação de no mundo, termos gente para usar, gente pra se deixar ser usado, a ilusão de estar a dois (ou mais) volta e meia desaparece quando enfrentamos a verdade e o saboroso fato de que estamos sós. Essa independência assustadora de sermos indivíduos encontra alguns vilões fáceis que nos alimentam histórias, que nos injetam cuidados e depois de um tempo – o tempo que levar – se vão. Com a gente, a história parece brindar um ‘tim tim’ agradável. Parece nos ensinar e aqui eu falo por mim, como sempre falei, me ensinar.

Você movimentou tanto. Você me provocou severamente sensações. Você me encantou tantas e tantas vezes, numa mesma frase ou num mesmo olhar. Você me sinalizou as curvas. Você soube respeitar cada tempo meu. E me desafiou em cada mentira. E me abraçou em todas as vezes que eu chorei. Você soube me provar que dizer ‘sim’ ou ‘não’ não significa sentir ‘sim’ ou ‘não’. Fez boa parte dos meus textos. Me entregou uma safra de palavras. Me provocou as melhores cartas que eu fui capaz de criar. Foi o texto que eu mais escrevi de diversas maneiras, sempre querendo dizer a mesma coisa. Você acalmou a minha ansiedade. Despertou com sabedoria que apesar das palavras, o silêncio do olhar é essencial. Eu sempre adorei compreender o teu olhar e sempre tive um orgulho imenso de todas as vezes que você me ouviu sem usar a gramática. Você me manteve por perto mesmo quando eu não quis. E quando eu te feri, você não me deixou. E feridos, soubemos nos respeitar sem abandonar a idéia de futuro.

Por isso eu queria dizer que depois de dez anos, é um prazer estar presente. Entregues a um amor de irmãos, de amigos, de homens, de gente que se ama e não se abandona por não querer, por não saber como, por tantos e tantos motivos que só você sabe, que só eu sei. Você é uma incrível poesia. E eu venho pensando e remando em direção oposta – para variar – logo eu, que falo tanto em mínimos óbvios. Dez anos atrás, a gente se encontrava e se estranhava e não tínhamos a dimensão do que ia acontecer. Eu lembro de te querer tanto e em voz alta. Eu lembro de você querer sempre mais o mundo. Sem metáforas, você sempre quis o mundo. Sempre transbordou levando quem estivesse ao lado. E permaneci até agora. E permanecemos e eu queria mais uma vez, pela primeira vez, dizer que te amo. E te oferecer o ponto de interrogação, o meu ponto de interrogação, que é tudo o que eu sempre te entreguei. E você não recusou.

– Egídio La Pasta Jr

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2 Respostas to "A Origem"

Olá, boa tarde. Você tem conseguido acessar o Mínimos Óbvios? Ele andou com problemas técnicos, mas me parece que agora está em paz. Obrigado pela leitura e pela divulgação de alguns dos meus textos.

um beijão

Olá Egídio! Tenho conseguido acessá-lo sim, mas realmente há um tempo atrás encontrei dificuldade, que bom que voltou ao normal. rs
Adoro seus textos, sou fã!
Parabéns pelo talento.
beijo grande

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