Just in Time

Deixarei a porta aberta

Posted on: junho 11, 2008

Chegarei em casa cansado depois do trabalho e, como fazem os imprudentes, por esquecimento, deixarei a porta aberta. Não tenho medo de ladrão. Tenho medo de que você não entre no segundo seguinte.

Tenho medo que não tenha sido você a me seguir agora a pouco, no caminho, como medo tenho de que, com a porta aberta, sem você entrar, o telefone não toque depois da próxima respiração. Receio que eu olhe para a cama e veja apenas um travesseiro e não dois, lado a lado enquanto aguço os ouvidos e não escuto nenhum som na casa que dê pistas de sua presença. Fico assustado com o fato de talvez nunca mais levar a tevê para o quarto, pois eu sempre assisto aos filmes na sala. E, sob as cobertas, não redescobrirei mais uma vez, como sempre, antes do filme terminar, o seu prazer secreto de adormecer no meio da história. E eu sei que adormeceu, pois seu corpo tem os pequenos espasmos de quem realmente caiu no sono. Quantos finais de filme deixei de inventar na manhã seguinte. Não quero deixar de sentir que adormeceu. E eu sempre sinto, pois sua cabeça repousa no meu ombro. Não quero também acordar sobressaltado na beirada do sono e descobrir que estou só, como quem percebe que estava apenas sonhando. Não posso abrir mão de, ao despertar, ir tomar café em sua companhia. Eu pergunto como é possível que eu abra mão da cumplicidade que há em trocar um compromisso pelo compromisso de não ir e ficar a sós. E pergunto também se alguma vez deixei de dizer as coisas importantes e nunca deixei de dizer e talvez tenha sido meu erro. Porque uma vez pedi dois dias e ganhei todo tempo do mundo. E todo tempo do mundo é o que eu não desejo agora. Queria apenas um minuto. Queria os bolinhos que você me fez numa de suas primeiras visitas. Queria agora até o saco plástico de lixo que marcava o muro de sua casa para eu não me perder. Queria o não-beijo que nos demos naquela noite e você estava especialmente linda e, se assim estava, era para mim. Não nos beijamos, mas o desejo era muito concreto para que deixasse de ser algo, ainda que sua negação. Me arrepia pensar que a moça da panificadora possa perguntar onde anda aquela menina sorridente e eu ter que dizer que não andamos sorrindo juntos ultimamente. E me entristece saber que a foto do copo de leite que me deu – e foi uma forma silenciosa que encontrou de estar sempre presente em minha casa – me olha ainda mais triste que eu quando passo pelo corredor. As lâmpadas nos postes que se apagavam à nossa passagem, o cachorro-quente vegetariano, nossos corpos refletidos juntos em todos os vidros e vidraças do apartamento, você lendo pra mim os seus livros preferidos, o seu banho longuíssimo pela manhã, o ir buscar você no trabalho aos sábados, as fotos de nós dois juntos que coloquei na gaveta sem olhar para elas, o recado colado no carro – que não descolei -, o seu jeito de colocar expressões em inglês no meio da conversa, (…) o doce de leite com a vaquinha desenhada, as torneiras falantes, a orquídea que agora viceja no jardim de minha mãe, o cinema de graça, o cinema pago, o dia em que você me olhou soltando pipa com o menino e os seus olhos eram os olhos de quem via o homem da sua vida, o homenzinho que cai da cama avisando que é hora de você dormir, (…) a temperatura nem muito quente nem muito fria e isso não é bom, nada bom, o acordar contrariada por ter brigado comigo no sonho, o tudo que eu olho aqui e você tocou. O tudo que eu olho aqui e você tocou. O tudo que eu olho aqui e você tocou. Todas essas coisas sem verbo, sem adjetivo, sem predicado, sem sujeito. Apenas elas. E certamente faltam algumas. Por isso, deixo a porta aberta. Não tenho medo de ladrão. Elas não podem ser levadas. E talvez nem interessem. Mas tenho medo de que você não entre no segundo seguinte.

 

– Alessandro Martins

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