Livro do autoconhecimento humano
sofremos até a página sete
amamos o próximo até a página três
temos certeza absoluta até a página dois
gostamos de peixe cru até a página nove
achamos a julia roberts bonita até a página cinco
conversamos como adultos até a página seis
pensamos na camada de ozônio até a página oito
acreditamos no ser humano até a página um
aceitamos o mundo como ele é até a página quatro
mas julgamos
julgamos sempre
pela capa.
- Marcelo Ferrari
De que planeta você é?
Oi! Meu nome é Nathalia, tenho 21 anos, moro no Rio de Janeiro, sou Técnica em Edificações e me formo em Letras no fim do ano. Comecei a postar aqui por pura falta do que fazer, e hoje posto pouco por excesso de coisas para fazer!
O /beforeesunsett tem pouco mais de um ano e – surpreendentemente – muitas visitas!!!! A não ser que este contador esteja total maluco tem gente demais vindo aqui ler as doideiras que eu posto e isso me deixa muito feliz!
Comenta cara! Fala teu nome, tua cidade, teus problemas. Fala se tá bom, se tá ruim… mas diz alguma coisa!
Diz de que planeta você é!?
Encarar o sol
Acho que eu digo tantas bobagens porque sei mesmo que no final de tudo a gente não vai se perder. As minhas palavras são ásperas porque as minha emoções oscilam, mas é tudo medo de te perder por algum motivo dessa vida e acabar tendo que me esconder nas minhas mentiras de novo pra, de novo, tentar encarar o sol sem ter você. É por isso que eu sempre seguro sua mão com força, é por isso que meu abraço às vezes te sufoca e que meu coração grita tão alto que te envergonha. A verdade é que eu tinha muitas teorias de liberdade e independência, mas é verdade também que eu, antes de tudo isso, nunca tinha entendido o que era mesmo o amor nessa vida.
- Rani Ghazzaoui
Amor não se pede
É triste amar tanto e tanto amor não ter proveito.
Tanto amor querendo fazer alguém feliz.
Tanto amor querendo escrever uma história,
Mas só escrevendo este texto amargurado.
É triste saber que falta alguma coisa
E saber que não dá pra comprar, substituir, esquecer,implorar.
É triste lembrar como eu ria com ele.
Mas amor, você sabe, amor não se pede.
Amor se declara: sabe de uma coisa? Ele sabe, ele sabe.
- Tati Bernardi
Páginas Arrancadas
Sinto saudades da nossa conversa ao pé do ouvido, palavras doces seguidas de muitos gemidos. Sinto saudades de fazer as pazes na nossa cama desarrumada e escrever nosso livro de novo sem páginas arrancadas. Aquele telefonema que você me deu, por quê não atendi mais cedo? Ainda havia tempo pra tudo, sobravam tantas horas no mundo. Eu sei que gritei na hora errada e você me respondeu com pedradas, sei também que falamos bobagens e que alteramos um pouco a voz. Seria muito para nós, fazer girar as rodas do moinho? Aquele telefonema que você me deu, por quê não atendi mais cedo?
Conchinhas…
“Todos os amores são conchas vazias, todos os corações um dia são partidos. Mas quando a gente encontra alguém pra deitar do nosso lado e contar estrelas com a gente, é como se uma pérola só nossa brotasse dentro da concha e fizesse a gente esquecer o escuro e a solidão. Eu sei que você tem medo e eu também tenho, mas a vida veio pra ser vivida e, se um dia roubarem a sua pérola tenha apenas uma certeza: você não vai morrer. E quando menos esperar outra pérola nasce. O nosso amor é burro, mas é bom. Quem escolhe se esconder dele por segurança não se machuca, é fato.
Mas também nunca conta estrelas de madrugada e nem, no final da vida, tem um colar de lembranças para contar.”
- Rani Ghazzaoui
O que eu quero de você
“Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora para sair da cama. E, depois, ir tomar café na padaria e ler o jornal com você. Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e nem vou conhecer, como se fossem meus velhos amigos. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhar o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento.
Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. E que pergunte se eu quero ver um DVD mais tarde. Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que comparilhamos enquanto olhávamos a lua. Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem
arrependimento. Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Que você nunca mais deixe de pensar em mim quando for a Londres,
escutar Dream’ Bout Me ou ler Nick Hornby. E, por fim, que você continue a dançar na sala. Para sempre. Mesmo quando eu não estiver mais olhando.”
- Milly Lacombe
Do amor neurótico
O amor neurótico impede tudo o que constrói uma relação saudável. Impede a amizade. Impede a cumplicidade. Impede a franqueza. Impede a honestidade. Impede a sinceridade. Impede a paz de espírito. Impede até o sexo realmente bom. Porque o sexo só é realmente bom com todos aqueles atributos. … Fuja do amor neurótico. Fuja enquanto dá. Enquanto você está fisicamente vivo e mentalmente são.
Sua menina
E é com leveza sublime e felicidade religiosa, de quem muito acreditou num milagre, que olho nos seus olhos hoje em dia. É com maquiagem adulta e salto fino de mulher que depois de tantos anos fui virar sua menina. É estranho, e delicado, e prazeroso, e engraçado. É tão intimista e complusivo ter você, finalmente, a meio centímetro de mim.
E dói a barriga, dói a cabeça, dói o peito. Dói, dói, dói, dói tudo a cada vez que eu tento pensar em você. Dá um nó no estômago de pensar que o mundo deu tantas voltas e foi parar de novo bem aqui, nesse ponto mal acabado da nossa história. Essa história louca que não tinha tido um fim pelo simples fato de que nunca tinha tido um começo.
E o começo começou bem no começo do meu desprendimento. Finalmente eu pude ver o final das coisas que finalizavam qualquer hipótese de um dia haver um final feliz com você. Porque eu era criança, eu era lilás, eu sorria de peito aberto pro mundo. E você era marmanjo, era irmão mais velho, era primo postiço achando que meu amor era adolescente. Eu sentava no chão da escola e olhava o jeito que você olhava todas aquelas meninas que nunca me olharam. Você sentava do meu lado e fraternalmente me abraçava. O meu coração explodia, mas minha alma nunca gozava.
E aí você namorou, e namorou, e namorou… E eu sempre fiquei namorando a hipótese de um dia namorar você. Procurando em todos os namorados que tive a delicadeza que era sua, o carinho fraterno que moveu a minha admiração adolescente durante todos aqueles anos confusos de auto-conhecimento e baixa auto-estima. Por mais distante que fosse a minha lembrança, nada nunca arrancou do meu coração calejado a infância cor-de-rosa que eu tive com você.
Pode parecer estranho, e meloso, e piegas. Pode parecer mentira, e exagero, e perfeição demais. Pode parecer carência, e ilusão, e passado. Pode parecer rápido, e confuso, e futuro. Pode parecer tanta coisa junta que pra mim já não faz diferença. Pode parecer tanta coisa e todas essas coisas serem mentiras separadas que formam a minha verdade universal.
E você pode ser de uma delas, você pode ser só dela, você pode ser só seu. Nós podemos ser o que nós quisermos e podemos continuar sendo um do outro. Eu posso escrever um livro, virar redatora, virar gente grande de verdade. Nós podemos ser o que sempre fomos e só nós dois sempre soubemos. Você pode ser o doutor para todos os outros, mas pra mim você nunca vai deixar de ser o moleque que me arranca o bico da cara e me tira a pose do corpo. Nós podemos fingir que não estamos tocados e seguirmos nossas vidas paralelamente só pra não variar o nosso conhecimento mútuo. Mas ainda que isso aconteça nada tira da minha cabeça que valeu a pena esperar esse tanto, e que, se fosse preciso, eu esperaria tudo de novo.
[Rani Ghazzaoui]
O amor, esquimós, árvores
A linguagem é condicionada pela realidade.
Os esquimós têm umas sete ou oito palavras diferentes para designar a neve de acordo com suas características. O que para nós, não-esquimós, é apenas uma monótona vastidão branca, para eles é diversidade, uma variedade que sabem identificar, classificar, nomear e detalhar.
No entanto, conhecem pouco as árvores e, por isso, chamarão uma figueira, um eucalipto e um carvalho apenas de árvore, sem talvez perceber que há uma diferença entre elas, assim como nós em relação às diferentes neves, cujas particularidades são tão evidentes para eles.
Os esquimós estão em um mundo de neve, cercados por neve, convivendo com a neve e, por isso, a conhecem em sua diversidade. Nós não chegamos a estar cercados de árvores, mas conhecemos também suas diferenças.
Nós, esquimós e não-esquimós, no entanto, chamamos muitas coisas diferentes por um único nome: amor.
Possivelmente, em nosso convívio não haja tanto amor quanto neve no Alasca. E talvez por isso não tenhamos nomes diferentes no nosso cotidiano para cada uma de suas inúmeras possibilidades.
Quem sabe, sequer exista tanto amor quanto árvores nas grandes cidades. E há tão poucas árvores por aí.
Talvez eu veja neve. Mas na verdade é sal.